Aporismo.

Quando o amor não nos basta, fechamos os olhos e abrimos as mãos.
Deixamos partir. 

Acreditamos, ingenuamente, que reaprenderemos a caminhar. 
Assim, com um pedaço do coração arrancado ao peito, ainda a sangrar. 

O vazio que fica não deixa, no entanto, de ter corpo. Tem nome, tem idade. 
Faz parte de nós como que um membro amputado que acreditamos sentir  


(desconfio que para sempre).


Como abrir as mãos e do pedaço arrancado tirar também o amor, ainda não descobri fórmula.


 

When you are old.

When you are old and grey and full of sleep
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

 

W.B. Yeats, 
Uma Antologia
Assírio & Alvim

Henri Matisse

Henri Matisse

[Escrito de memória]

1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.

2. Um breve estremecimento no movimento do coração (do meu coração).

3. A impressão de alguém olhando-
-te atrás de ti.

4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente
(que só tu ouves dentro de ti).

5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.

6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes. 

7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.

8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.

9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.

10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.

11. Esse país estrangeiro, o tempo. 

 

 

Manuel António Pina,
TODAS AS PALAVRAS poesia reunida
Assírio & Alvim

Um número elevado

Quatro biliões de pessoas nesta terra,
e a minha imaginação é como sempre foi.
Não se dá bem com números elevados,
É sempre ainda um pormenor que a comove.
Como luz de lanterna, esvoaça no escuro,
iluminando apenas os rostos mais à mão,
enquanto os outros vão seguindo às cegas,
na pena incontinente, o impensar.
Nem o próprio Dante, porém, o impediria.
Quanto mais quando se o não é.
Nem que todas as musas me acudissem.

Non omnis moriar - mágua permatura.
Será que todavia vivo inteira e isto basta?
Nunca bastou e agora muito menos.
É rejeitando que escolho, não há outra maneira,
mas é mais numeroso o que rejeito,
mais denso, mais obsessivo do que nunca.
Pelo preço de perdas incontáveis - um minúsculo poema, um suspiro. 
Ao retumbante apelo respondo sussurrando.
Quanto em mim silêncio não direi.
Rato em sopé de maternal montanha.
A vida dura três marcas de garras na areia. 

Não são sequer, como deviam, humanos, os meus sonhos.
Há neles mais solidão que multidões e gritos.
Aparece, às vezes, por momentos, alguém há muito morto.
É uma simples mão que abre a porta.
As respostas de um eco cobrem a casa vazia.
Eu precipito-me correndo do limiar a uma planura
de silêncio, como sem dono, anacrónica já.

Ignoro donde me vem este espaço ainda em mim.

 

 

Wisława Szymborska,
Paisagem com Grão de Areia
Relógio D'Águua