it is so long since my heart has been with yours

it is so long since my heart has been with yours

shut by our mingling arms through
a darkness where new lights begin and
increase,
since your mind has walked into
my kiss as a stranger
into the streets and colours of a town–

that i have perhaps forgotten
how,always(from
these hurrying crudities
of blood and flesh)Love
coins His most gradual gesture,

and whittles life to eternity

–after which our separating selves become museums
filled with skilfully stuffed memories

 

 

e.e. cummings

Recados que te escrevo #5

Lá vem ele com aquele sorriso malandro... Eu já te disse que não nasci para isto, sei lá eu se as sementes da courgette se tiram ou se comem! Riiii-te... riiiii-te! Até parece que fiz isto a minha vida toda! Tu tens com cada uma! Se era para ires embora assim, tinhas ficado, assim como assim sempre te podia abraçar. Agora não te vejo. Ouço-te, sinto-te. Às vezes fico desconfiada se não serão coisas da minha cabeça, uma pessoa já não sabe bem, são muitas horas a falar com os gatos, mas sabe-me bem, enquanto acreditar que estás aqui, vais estar sempre aqui, o problema é quando deixamos de acreditar, e isso é coisa que nunca nos permitirias. Estou a ficar uma pro no que toca a arranjar legumes, nem me venhas com coisas (olha, lá está ele a sorrir com as covinhas), toma, tens aqui caramelos! Esses vieram de Londres, conheces Londres? Ias gostar! Sim, esses podes comer, a Kikas deixa e eu também. Esse sorriso vale tudo. 
Olha, queres saber? faz hoje um mês que fomos 'Arrouquelas. Fui à tua "pr'ecura", vamos sempre à tua "pr'ecura"... A Beatriz está cada vez mais crescida, cada dia mais bonita! A família cresce... e sabes? Vou casar! Eu sei, guardei esta notícia para te contar no fim, não sabia como dizer-te! Quis uns Brincos-de-Princesa, se bem que falar com as flores talvez não faça de mim uma pessoa muito normal, mas tu estás em todos os Brincos-de-Princesa e vamos enganando a ausência, passo a passo, o melhor que sabemos (e podemos), mas o dom das flores ficou em ti, não saltou gerações, não sei como cuidá-las. Por isso te escrevo, na esperança que de alguma forma estas palavras te cheguem. Vou casar, avô, por isso é bom que ajeites o teu melhor fato e que estejas lá, mesmo ao meu lado, com a tua mãozinha na minha, a sorrir com os olhos e com as bochechas. 

Amo-te muito, Trinca- Espinhas.

Não precisavas de ter partido tão cedo, estou em crer que te enganaste no ano, mas eu perdoo-te, às vezes acontece. Vai daí até gostaste desse novo sítio e por isso é que não voltaste!

dos "isolados".

'Quanto a mim, em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abrimos, nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir, apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam.'
 

Paris, 21 Janeiro 1913

Cartas a Fernando Pessoa,
Mário de Sá-Carneiro

antes da palavra


hesito muito antes da palavra.
porque um precipício se abre nela
e não tem sentido, vibra apenas.
porque pode ser a morte
ou o nascimento para um lugar 
de cores e fadas e barcos de sol. 
porque me doem as mãos
cada vez que tento segurar
o mundo em traços redondos quadrados.

por isso te digo: hesito e morro e nasço.
e corro para a rua com a força de quem 
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas
enquanto caminho para um banco
de jardim, devagarinho,
como se por um momento
eu soubesse o nome de tudo
e tudo tivesse o mesmo nome.


Vasco Gato
"Um Mover de Mão"
Assírio & Alvim